TRENDS

PARADIGM

Liquid Hypermodernity

PT | No âmbito dos Estudos de Tendências, o Paradigma é um pressuposto com impacto capaz de originar um modelo de sociedade, ou seja, funciona como uma referência para as mentalidades e para os comportamentos sociais que ilustram uma época. Tendo sido proposta como Hipermodernidade por Gilles Lipovetsky, e anteriormente abordada pela Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman, a Hipermodernidade Líquida define o “agora”. Ela dá ênfase ao objetivo do projeto da modernidade, focando-se nos desenvolvimentos técnicos, científicos, individuais e espirituais. As atuais mentalidades e os seus comportamentos associados apresentam um carácter volátil, marcado por rápidas e profundas mudanças nas estruturas sociais, bem como por uma possível descrença no futuro. Como resultado, o termo hiper tem marcado a forma como se produz e como se consome, dando lugar ao nascimento do hiperconsumo. A hipermodernidade apresenta-se como uma intensificação do modelo proposto na modernidade e na pós-modernidade.  A ideia de convergência de todos os aspetos da vida quotidiana, seja ao nível de instrumentos, do acesso, de funções, de tecnologia, de experiências e até de áreas (humanidades + gestão ou tecnologia + biologia), provoca uma fluidez que caracteriza este conceito. A manutenção de um estilo de vida confortável já não é suficiente; procura-se ultrapassar as limitações físicas do homem e o seu próprio conhecimento sobre o mundo – promovendo, em simultâneo, um repúdio pelo passado e uma nostalgia pelas imagens, símbolos e narrativas de tempos anteriores. Não obstante, a ideia é de que o ontem é sempre menos do que o hoje, sendo que este último não é mais do que um reflexo de um futuro que se auto-impõe e que já está presente. Sublinhe-se também a super-abundância de artefactos do passado que provocam clutter e que levam à reciclagem simbólica, bem como a uma incapacidade de identificar a originalidade e os sentidos.

Grandes Ramificações do Paradigma que acabam por afectar vários aspectos macro das mentalidades e dos Comportamentos:

  1. a) Empowerment. Esta é uma ramificação que acompanha a sociedade ao longo do seu desenvolvimento. Ela actua como um catalizador de emoções e de comportamentos, para benefício do desenvolvimento do indivíduo e das comunidades, que se adapta a cada zeitgeist e movimento, podendo assumir várias formas. Actualmente, tem como foco manifestações como a Empowered Education – o poder crescente da educação como mecanismo de transformação e de desenvolvimento pessoal/comunitário, visto de uma forma crescentemente líquida pelos próprios programas, metodologias e objectivos de ensino; o Empowered Digital Self – o “eu” digital como uma personalidade/entidade autónoma, colocando a questão: Qual é o “eu” real? No digital, o consumidor tem maior poder para atuar e para mudar o seu meio. A internet não deu ferramentas ao indivíduo, ela criou um novo empowered consumer! Isto sugere a possibilidade crescente dada ao indivíduo para intervir na mudança e na definição da sua realidade. Seja através de uma maior consciência perante os grandes desafios do progresso social, ou para o simples benefício da comunidade, o indivíduo quer poder para mudar a sua vida e a dos outros. Neste sentido esta mentalidade tem sido um elemento característico da natureza humana, sofrendo várias alterações ao longo do seu desenvolvimento.

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MACRO TRENDS

Experienced Narratives

PT | Nesta liquidez crescente de conceitos, ideias e estruturas, importa sublinhar a pertinência de âncoras simbólicas capazes de permitirem um desenvolvimento sustentável de identidade(s). Se articularmos os elementos da economia da experiência com as identidades narradas – práticas, objetos e sinais que sublinham elementos identitários e os símbolos por detrás das nossas raízes – sob a bandeira de uma experiência e cultura simbólicas que colocam em causa a cultura material, identificamos uma nova mentalidade que agrega conceitos como estórias, nostalgia, experiência, discurso, raízes e identidades. Esta tendência identifica a necessidade de ter em consideração a memória e a importância de cercar-nos de símbolos, imagens e histórias ligadas ao nosso imaginário e capazes de projetar experiências e narrativas para o futuro. As posses materiais são efémeras, tornam-se desatualizadas e perdem valor diante da memória e da experiência emocional. Neste sentido, as identidades tomam a forma de narrativas, de estórias, agregando elementos semelhantes e diferentes para criar novos significados e novas estruturas. Só que desta vez, cai a solidez e entra uma fluidez onde não se encontram mais fronteiras fixas entre sentidos e construções simbólicas individuais e grupais. Isto permite uma permanente viagem entre identidades, significados e experiências, ou seja, uma construção de pluralidades que são regidas e negociadas pelos indivíduos. Em simultâneo, exige uma curadoria dos elementos a abordar nas narrativas e nas identidades, pois existem questões de memória a serem consideradas. Se a problemática da autenticidade é cada vez mais atual, esta fluidez permite um elevado nível de personalização que combina com o desenvolvimento de tribos urbanas com práticas e representações negociadas e em constante mutação. Em suma, é um momento de estórias que querem ser experienciadas e que emanam de identidade(s) fluidas em constante mutação ao nível individual e grupal, sendo que este elemento de narrativa tem um forte poder de identificação, gerando benefícios ao nível de associações simbólica entre indivíduos e entre estes e marcas.

Principais Tópicos Culturais associados: Identidade(s); Autenticidades; Memórias; Tribalismos; Estórias; Narrativas; Fantasia.

Derivações na forma de MICRO TENDÊNCIAS:

NOSTALGIA // Esta falta de solidez nas estruturas referida na macro tendência traz consigo a consequência de uma nostalgia por representações, práticas e artefactos do passado, ainda presentes na memória coletiva, que servem como âncoras identitárias e importantes elementos para uma associação simbólica que tem um impacto positivo ao nível de identificação emocional entre os públicos.

URBANITY// Mais de metade da população mundial vive em grandes cidades, e ao contrário do que aconteceu em anos passados, a maioria das pessoas nasceu nas cidades. Quem não nasceu, vive as cidades com tanta intensidade como uma terra-natal. Gostam de torná-la na sua cidade, cuidar dela e tratá-la como se fosse a SUA casa.  Isto indica o interesse que as populações urbanas ganham pelo espaço onde habitam, tornando o mesmo mais acolhedor para si e para os restantes habitantes. Representa a necessidade que as pessoas têm em dar um cunho pessoal a algo que antes não tinha rosto. Quem mora na cidade começa a querer conhecer os mais recônditos cantos e histórias passadas, de modo a tirar o maior proveito dela, dando em troca a dedicação e carinho para a estimular: “viver a cidade”. Um resultado em franco crescimento é a questão da gentrificação. Importa analisar como espaços urbanos tornam-se palco de mutações (convidando hipsters, new agers, intelectuais, etc), cunhados como sinais de criatividade e inovação capazes de sublinhar as manifestações, simbologias e práticas autóctones, geralmente com foco na restauração e nas “artes”. Este é um processo de mutação entre o “mainstream” e o “underground” que pretende revitalizar zonas, sem deixar de se correr o risco de afetar a verdadeira identidade e dinâmica do espaço. As narrativas urbanas e a experiência da cidade são importantes elementos nesta articulação de uma identidade narrada.

GAMIFICATION // A mecânica dos jogos está agora em todo o lado. Eles permeiam o nosso quotidiano e são um factor importante para as marcas na co-criação de narrativas e na geração de Motivação. Gamification como conceito diz respeito à aplicação das dinâmicas e técnicas de jogo e das suas narrativas na geração de uma ligação capaz de motivar os indivíduos. Esta prática imprime no consumidor e no criador a necessidade e sempre presente ideia de que temos de criar experiências e estórias desenhadas com base nas mecânicas dos jogos. Espaços, emblemas, vitórias, fantasia e descoberta tornaram-se comuns na exploração de atividades e práticas, na comunicação e na conceção de produtos/serviços. Ao atingir objetivos, o sentimento de realização aumenta, bem como a ligação à marca.

FROM GEEK TO COOL // As práticas, representações e artefactos de tribos geeks, anteriormente verdadeiras subculturas que estavam encerradas em nichos de públicos com uma paixão verdadeira por estas narrativas (da ficção científica à fantasia e ao gaming de computador, passando por jogos de tabuleiro, entre outros), passaram ao domínio massificado. Se as massas não possuem um elo de ligação tão forte com a narrativa e se isso se ainda é domínio das tribos, estas estórias massificaram-se e os seus objetos tornaram-se alvo de consumo por parte do largo público. Veja-se a massificação das narrativas de ficção científica e de fantasia como Star Wars, Star Trek, Doctor Who, entre muitas outras; o sucesso do j-pop e do k-pop; a crescente popularização do gaming, mesmo ao nível de uma nova realidade virtual; entre muitos outros sinais.

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Connection and Convergence

PT | A Internet mudou o mundo e a forma como cada um interage em sociedade. Agora, há um conjunto de equipamentos e gadgets a convergir num só, de forma a potenciar essa nossa necessidade de estar permanentemente conectado e informado, já para não falar da importância e do impacto crescentes da Inteligência Artificial. No entanto, é uma convergência ergonómica que se impõe na nossa rotina diária. É a ergonomia pura e simples da forma como os equipamentos são cada vez mais convergentes e fáceis de manusear (veja-se a “wearable technology”), mas é principalmente uma ergonomia que elimina as fronteiras entre o indivíduo e o seu mundo, os seus objetos e as interfaces: uma extensão das capacidades, do corpo e do potencial humano. Com um crescente número de manifestações associadas à necessidade de estar-se sempre ligado e com novas formas de convergência, esta tendência permanece como uma resposta que tenta criar uma nova realidade de acessos e de interação com o mundo, seja ele físico ou digital. Aqui a questão da hibridização é muito importante, seja ao nível de produtos/serviços, funcionalidades ou até de realidades (o físico e o digital), sendo que a realidade virtual e aumentada terá um papel crescente nas novas mecânicas e dinâmicas sociais. Por outro lado, novamente, tudo isto implica uma curadoria na personalização das interações e das possibilidades de ligação, sempre numa perspectiva de simplicidade para o utilizador.

Principais Tópicos Culturais associados: Conexão; Convergência; Ergonomia; Virtual.

Derivações na forma de MICRO TENDÊNCIAS:

ERGONOMIC LIFESTYLES // Podemos estar sempre a um clique ou a um download do que queremos. Seja chegar do ponto A ao B, seja um vestido novo, num um mundo onde a sociedade está dividida por múltiplos e líquidos estilos de vida, os produtos e os serviços adaptam-se aos anseios emergentes com a intenção de otimizar a vida dos consumidores. Isto implica uma abordagem de design com vista a uma simplicidade de uso; ter em mente a fabricação e o serviço com baixos custos de manutenção e reparo; ter em consideração que a demonstração de relevância e valor é primordial para a adoção tanto pelos usuários finais como pelas suas famílias. A interatividade já se tornou um código social dentro da montanha russa de emoções que o quotidiano proporciona. O controle destas novas dinâmicas está na  convergência e na ergonomia de funções que tem como força motora a tecnologia. Esta última proporciona uma convergência de funcionalidades dos objetivos que se articula com os vários desafios e facetas do nosso quotidiano e do estilo de vida específico de cada indivíduo. Estaremos possivelmente perante uma desvirtualização do mundo onde as várias realidades se conjugam para criar um novo mundo onde não há fronteira entre o digital e o físico. Será a convergência não apenas de aparelhos, mas também das próprias realidades numa ergonomia que pretende transpor o ser humano para um novo tipo de realidade?

AUGMENTED AND FRONTIER REALITIES  // Num mundo onde a imagem tem precedência, a circulação de imagens sublinha os detalhes da vida quotidiana. Precisamos agora de filtros de desconstrução da realidade – estamos perante uma utopia, ou um movimento social para a utopia? Isso afetará o valor do real e do “autêntico” em produtos e serviços. Por outro lado, importa analisar e reflectir sobre novas manifestações que reflectem uma articulação profunda entre a macro tendência e esta micro tendência. Estamos possivelmente perante uma desvirtualização do mundo, onde as várias realidades se conjugam para criar um novo mundo onde não há fronteira entre o digital e o físico. Será a convergência não apenas de aparelhos, mas também das próprias realidades numa ergonomia que pretende transpor o ser humano para um novo tipo de realidade.

SECRET AND DISCONNECTED  // Esta micro tendência funciona como um contra movimento à mentalidade macro. Por um lado, existe também um sentimento que estamos demasiado ligados e a partilhar um largo número de dados pessoais, já para não falar da pressão em ter de estar sempre disponível e ligado. Isto produz uma necessidade de desligar, mesmo que de tempos a tempos, ou estar menos conectado, bem como uma certa precaução em relação à partilha de dados e ao acesso aos mesmos.

Balanced Self

PT |“Eu quero sentir-me bem, capaz de superar todo e qualquer stress! A minha saúde e bem-estar são uma riqueza que eu quero preservar ao máximo.” Esta tendência traduz a nossa necessidade mais básica de viver em paz e equilíbrio, de forma a ter tempo para encontrar o nosso equilíbrio emocional. Vivemos cada vez mais num clima de stress e de conflito, em termos dos planos digital e físico, o que é exigente em termos emocionais. Num mundo sobrecarregado de informação (com o fantasma das fake news presente) e com exigências cada vez maiores, é imperativo o tempo para relaxar e “reconectar”. Esta mentalidade articula a saúde e o bem-estar, bem como a longevidade e a felicidade, como necessidades fundamentais. Os benefícios são óbvios e «mente sã em corpo são» permite que se possa enfrentar com outra “garra” as adversidades dos tempos atuais. A promoção e a monitorização permanente de práticas e estilos de vida mais saudáveis têm vindo a ganhar adeptos e são fortemente disseminadas, com recurso às tecnologias de informação e a um mundo cada vez mais interligado. Partilham-se estórias, experiências, técnicas, dietas, planos de treino, etc.; tudo o que promova a vitalidade é bem-vindo. Isto justifica os movimentos relacionados com a meditação; a prática física; uma alimentação mais saudável e sustentável; a procura por empregos e atividades com maior significado e que não sejam entendidos como fonte de insatisfação; a importância do lazer e das experiências.

Principais Tópicos Culturais associados: Vitalidade; Natural; Bem-Estar; Stress.

Derivações na forma de MICRO TENDÊNCIAS:

EXCESS THERAPY // Vivemos numa sociedade acelerada, “stressada” e com diversos problemas económicos e sociais. Excess Therapy reflete a necessidade de fugirmos, ainda que por pequenos momentos, da confusão e da incerteza existentes. Muitas vezes, precisamos de descontrair e de desfrutar do prazer de fazer algo que está fora das nossas possibilidades habituais, que nos permite viver outro estilo de vida e sonhar com um futuro melhor; alhearmo-nos do que nos rodeia e, por momentos, desfrutar em pleno, sem culpas nem pesares.

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Sustainable and Shared

PT | Mais do que reciclar, é a consciência de que os recursos naturais são finitos, estão a terminar e por isso temos de promover um estilo de vida sustentável. Será uma reação à fluidez cada vez maior da vida, onde tudo muda e até desaparece? Assim sendo, exige, portanto, pontos de “ancoragem” e de maior durabilidade. Uma ação essencial que se impõe para indivíduos e instituições para evitar uma revolução causada pela “luta” por recursos essenciais que escasseiam e que podem vir a ser cobrados a grande custo. Neste sentido, cresce a ideia de partilha de bens e de experiências, com responsabilidade, bem como uma preocupação com o natural e a simplicidade.

Principais Tópicos Culturais associados: Sustentabilidade, Crise, Partilha.

Derivações na forma de MICRO TENDÊNCIAS:

HUMAN TO HUMAN // A sociedade atual tem consciência dos problemas económicos, sociais e do facto de os recursos ambientais serem finitos. Esta consciência leva a um novo modo de comércio, o Consumer/Human  to Consumer/Human. As arrecadações, garagens e despensas já não precisam de estar atulhadas com coisas que não precisamos, mas que estão em boas condições. Este novo modelo de consumo permite a compra e a venda de produtos, em segunda ou terceira mão, por parte de outro consumidor. Este comportamento permite adquirir produtos mais baratos e que contribuem para a preservação ambiental, sendo que o conceito se baseia na reutilização de produtos. Continua a ser consumo, só que com menos despesa financeira e ambiental. Pressupõe também a troca de serviços, de acordo com as competências de cada um. Uma economia paralela e ativa.

Rooted in Reality

PT | “Rooted in Reality” é um aviso e uma exigência de largas parcelas da população para que políticos e autoridades tenham em atenção as suas necessidades fundamentais e imediatas, com base na percepção das suas realidades económica e financeira, e nas múltiplas identidades nacionais. Tem como base a mentalidade “From Revolution to Anger and Demand” e é impulsionada pela cada vez maior necessidade de: 1. Atuar contra realidades económicas e financeiras adversas; e 2.(Re)ver as raízes  e identidades nacionais, tendo em atenção entidades e associações supranacionais e/ou movimentos migratórios.

Nestes tempos  de “hipermodernidade líquida”, é um grito do coração dos setores com menos poder para travar ou, ao menos, reduzir a excessiva fluidez económica e societal que ameaça a sociedade como a entendem, assim como uma demonstração de que eles têm uma voz e de que os seus votos e apoio serão dados aos que ouvem. É uma advertência salutar e um brado por democracia, e todas as pistas para a construção de um mundo melhor nela se encerram. Mas, se for ignorada, pode ser apossada por oportunistas que a utilizarão para disseminar e justificar a ignorância, o fanatismo e a intolerância – constituindo-se, assim, numa ameaça  latente, real e forte contra a própria essência da democracia. Na opinião extrema existe a abstenção dos problemas reais, do extremismo político ao ideológico, revoltado mas incapaz de compreender a profundidade das causas. Aceitam-se narrativas, pois não existem as ferramentas para lidar com a comunicação e distinguir argumentos ou desconstruir discursos. Recentemente, esta tendência tem sublinhado uma crescente polarização de índole ideológica que se manifesta violentamente nas redes sociais e não só. Muitos sentem que houve uma pressão ideológica de certos sectores e agora contra-movimentos agem em reação. O resultado é um discurso cada vez mais pautado pelo ódio, pela intolerância e pela incapacidade de ouvir das várias partes, sendo que o fenómeno das fake news e da desinformação pode vir a agravar a situação.

Possíveis consequências podem levar a paternalismos governamentais/corporativismo; a um simplismo intelectual; a uma erosão de direitos e do primado das leis e constituições; ao surgimento de focos de resistência intelectual e libertária.

Principais Tópicos Culturais associados: Política, Crise, Polarização.

Derivações na forma de MICRO TENDÊNCIAS:

LIQUID AUTHORITIES // As chamadas figuras referenciais e prescritoras jamais deixarão de existir em qualquer sociedade. Esta tendência representa a mentalidade sempre presente de quem quer “subir na escala social” e ser visto como uma referência do sucesso e do bem-estar. Por outro lado, sugere também a reverência por aqueles considerados autoridades nos seus campos. Todavia, a sociedade está a tornar-se de tal maneira inclusiva que já se começam a sentir movimentos de “libertação” dos prescritores tradicionais, pela inclusão de figuras populares que, seja pelo seu estilo próprio, seja por um tributo a uma competência específica, começam a tornar-se em referência para muitos, especialmente dentro de determinadas tribos urbanas. Esta tendência não deve ser confundida como a adoração cega de celebridades, e certamente não o tempo todo. Por outro lado, a falta de um crivo informado sobre os influenciadores podem dificultar o processo de legitimidade. Exemplos recentes de comportamento rebelde e até mesmo paródias revelam o rosto de manipulação do “estatuto de celebridade” e do início da rejeição de seus traços falsos e mais perniciosos. Assim, estamos a ver um choque entre um processo mais tradicional de legitimação das autoridades influenciadores e a viralização de outros agentes prescritores. Uma coisa é certa, o poder dos influenciadores é cada vez mais líquido e pode desaparece tão rapidamente como surgiu.

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Unrestricted Human

PT | Unrestricted Human é o reflexo de um tempo líquido onde o mais importante é a criação de uma identidade que ultrapassa o género ou qualquer condição externa – é uma identidade produzida do interior para o exterior.
A materialidade do corpo está agora sobre o total controlo do EU, e o eu já não quer ter a restrição de ser categorizado, pois ele quer apenas ser ele próprio, uma vez que o resto do mundo não se mostra interessante. Sublinha-se a dicotomia entre a proteção da identidade física e a libertação para um estado de não-identidade material em prol de um estado de identidade imaterial que é impresso.
É o individualismo expresso no corpo. É o negar da condição humana física em prol de uma identidade mais completa. Nesse sentido, também expressa uma mentalidade que vai além da idade física, aproveitando o potencial de novas habilidades e experiências para um segmento da sociedade cada vez mais mais ativo.

Apesar da sua designação, não é uma tendência sobre a questão de género. Note-se que compreender o papel do género é importante, mas pensar num padrão reduzido a este conceito é conceber uma tirania semiótica para definir esta mentalidade. Esta tendência circunscreve uma nova visão humana sobre o “eu” e a materialidade desta identidade abstrata.
Atualmente, escuta-se uma referência constante ao que é designado de Pós-Humano que num sentido lato significa estar para lá do estado humano. Se utilizarmos um plano de racionalização extrema, percebemos que estamos a modificar a nossa condição de humano. Como é um conceito que surge primeiramente na ficção científica, está bastante associado à questão da evolução da tecnologia. Note-se que isso provocou uma confusão entre o que é o pós-humanismo e o trans-humanismo. No entanto, o que interessa para definir esta tendência é que este momento demonstra uma nova apreciação do corpo como materialidade de uma Identidade que deixou de ser rígida, onde os corpos performatizam narrativas a partir de uma estrutura de repetição, ao mesmo tempo que têm potencial para subverter as imposições de normas. O fato é que os indivíduos anseiam por liberdade para assumirem o que lhes for mais confortável e original.
A internet e as vidas online catalisam ainda outra a mudança. Além dos múltiplos “Eu” que se podem criar, permite-se eliminar e distanciar a vida real desses desvaneios do ego. A identidade apresenta-se como uma árvore que se ramifica sem limite aparente. A identidade online passou a ser andrógena e, dada a natureza da Internet, a existir sem forma (avatar em constante mutação), tempo (referências de todas as épocas) ou espaço (a rede é descentralizada e global) que a moldem. Esta cultura da vida online transpõe-se para trans-humanismo, à medida que a tecnologia é democratizada ao extremo e as linguagens [de programação] estão presentes deste tenra idade. Aqui a ergonomia, no seu entendimento mais geral, ajuda a compreender a necessidade de ir ao encontro do novo ambiente, das novas necessidades e das novas potencialidades.

Principais Tópicos Culturais associados: Política, Crise, Polarização.

Derivações na forma de MICRO TENDÊNCIAS:

DIVERGENCE // Esta mentalidade, que surgiu do próprio conceito de empowerment, acabou por se alargar a outras dinâmicas sociais, como o estilo e as tribos urbanas. Se em décadas anteriores existia uma fácil categorização dos grupos sociais em estratos económicos e outros (dos Beats aos Mods e aos Rockabillies), hoje o indivíduo é divergente e está presente em vários grupos. Ele associa-se por interesses específicos e não por grandes construções ideológicas. Este fenómeno de tribalização múltipla sugere que um indivíduo pode estar na tribo dos surfistas enquanto pertence em simultâneo ao clube de fãs de Star Trek, e a outras tribos. Isto revela uma desfragmentação das identidades  de prescrição tradicionais que definiam formas de ser e de estar, bem como os grupos a que cada um podia pertencer e os locais que podia frequentar. Esta divergência não só promove um maior potencial criativo como novos processos nas relações sociais, tornando as estruturas crescentemente líquidas. Por outro lado, esta tendência também pode ser reveladora de uma certa pressão para a pluralidade de competências, conhecimentos, especializações e identidades, tanto sociais como profissionais. Muitas empresas esperam hoje por um verdadeiro “Homem do Renascimento”.

IRREVERENCE // Actualmente, a irreverência está a ganhar um sentido especial. O excesso é uma forma de comunicar com os millenials que partilham informação num passo demasiado rápido. No vestuário ou na publicidade, a irreverência pode ser uma necessidade.

IDENTITIES REVISITED (the Feminine and the Masculine) // As mulheres estão gerar um impulso crescente para uma integração plena na sociedade, nos negócios e na política – e, portanto, não precisam mais de pedir proteção. Cada vez mais, transformam as suas mentes e ações para mostrar como são diferentes dos estereótipos estabelecidos. Além disso, que há mudanças poderosas e positivas que esta realidade pode trazer para as empresas e a sociedade. Em outras palavras, as  mulheres são capacitadas para ser e fazer muito mais. É uma questão de poder (e ele está muito relacionado com essa mentalidade), de representatividade, de igualdade e de uma necessidade de mostrar ao mundo e ao seu ambiente social de que são capazes e, sim, elas podem!

Por outro lado, os homens atravessam uma fase de discussão e de revisão sobre as representações das masculinidades. Assim, procura-se uma verdadeira articulação entre um cuidado com as práticas e as imagens que surgiram nos anos 90 e 00 com as perspetivas mais tradicionais sobre a masculinidade. Nasce uma simultânea cisão e evolução natural do metrossexual, o qual prevaleceu durante a década passada, que não desvirtua um conceito de virilidade. É um homem que procura ser mais conciente nos afectos, na sua imagem, na relação com os outros. Isto contitui-se, no seu núcleo mais elementar, por novas e variadas formas de masculinidades, com diferentes práticas e representações.

Uncontrollably Pop

PT | Popnography, a hipérbole do Pop é um conceito em expansão em vários canais, tem o seu impacto no nosso estilo de vida, gerando dinâmicas, práticas e representações sociais. Este “Pop” massificado revela uma mentalidade cada vez mais regulada por um velho conceito que se vai manifestando com as cores de cada momento, o Kitsch. Esta articulação sublinha o vulgar que copia o denso sem conseguir atingir as qualidades originais, uma tradução que fica pela metade e que coloca novamente em causa a própria ideia de autenticidade. Por outras palavras, é uma falso autêntico, um “mau gosto” que é produto da imitação e da incapacidade de replicar, pelas novos influenciadores e autoridades, com o devido conhecimento sobre a profundidade das narrativas. O resultado de um presente num quotidiano pautado pela cultura de massas que  resulta numa tradução dos tecidos e texturas do atual momento, enquadrada num consumo acelerado.Sublinha-se, assim, a falta de densidade cultural presente no efémero e que afecta não só os discursos como a produção cultural.

Principais Tópicos Culturais associados: Kitsch; Pop; Autenticidade; Massificação.

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